O caso paranormal que aterrorizou uma escola no interior do Ceará

Há mais de dez anos, o distrito de Cachoeira BR, localizado em Itatira, no Sertão de Canindé, foi cenário de uma sequência de acontecimentos que até hoje causam desconforto entre os moradores. O episódio, que ficou conhecido como “fenômeno de Itatira”, reuniu relatos incomuns envolvendo estudantes e provocou a mobilização de profissionais da saúde, representantes religiosos e autoridades públicas em busca de explicações.

Durante várias semanas, a rotina da Escola de Ensino Fundamental Eduardo Barbosa foi alterada. Ao todo, 33 estudantes  32 meninas e um menino  apresentaram manifestações semelhantes, como episódios de transe, desmaios, comportamento agressivo, mudanças bruscas na voz e força física acima do esperado para a idade.

Os primeiros registros surgiram em 2 de junho de 2010. Segundo relatos da época, estudantes entre 11 e 16 anos começaram a apresentar dores musculares intensas, sensação de falta de ar, taquicardia e estados alterados de consciência. As crises ocorriam de forma repentina e se espalhavam entre os alunos.

Durante os episódios, algumas alunas demonstravam agressividade incomum e alteração na tonalidade da voz. Após o término das crises, no entanto, retomavam o estado normal, conversando e agindo como se nada tivesse ocorrido.

O caso ganhou repercussão e foi acompanhado pelo jornal Diário do Nordeste por aproximadamente três semanas. Uma estudante de 16 anos descreveu a sequência dos sintomas: começava com calafrios, seguida de tremores nas mãos, sensação de sufocamento no peito, fraqueza nas pernas e, por fim, o desmaio.

Um aluno de 14 anos relatou sentir uma inquietação intensa, acompanhada do impulso de correr e gritar, além do medo constante de morrer. Já outra jovem, então com 18 anos, afirmou que as crises vinham acompanhadas de uma força mental que alterava a fala e induzia pensamentos ligados a orações e rituais religiosos.

Alguns depoimentos mencionavam ainda a suposta presença de um rapaz uniformizado, descrito como uma figura espiritual que observava e falava com os estudantes, também com a voz modificada.

Estudantes ficavam em transe e tinham alterações na voz e no comportamento.

Avaliação psicológica

Diante do clima de pânico, as aulas chegaram a ser suspensas. Em 11 de junho de 2010, o padre e parapsicólogo Élio Correia Freitas foi chamado para analisar a situação. Ele realizou atendimentos individuais em uma sala reservada da escola.

Após a avaliação, Freitas descartou explicações sobrenaturais e apontou o caso como um episódio de histeria coletiva, termo atualmente substituído por Doença Psicogênica de Massa (DPM). A mudança de nomenclatura ocorreu para evitar interpretações pejorativas associadas exclusivamente ao comportamento feminino.

Segundo o parapsicólogo, os episódios estariam ligados a angústias e sofrimentos emocionais reprimidos, que se manifestaram de forma coletiva. Para ele, não havia indícios de possessão espiritual, mas sim reações do inconsciente das jovens envolvidas.

Freitas defendeu a necessidade de acompanhamento psicológico e psiquiátrico, afirmando que os estudantes apresentavam sinais de sofrimento emocional que precisavam ser verbalizados. Ele ressaltou a importância do acolhimento e do respeito às crenças religiosas, mas destacou que, naquele caso, a abordagem deveria ser médica.

Divergência de interpretações

Apesar da avaliação técnica, não houve consenso entre os líderes religiosos da região. Um padre católico adotou uma postura cautelosa, afirmando que seria necessário aprofundar a análise antes de qualquer conclusão.

Já representantes de igrejas evangélicas levantaram a hipótese de influência espiritual negativa, associando os episódios à ação de espíritos de jovens que teriam morrido em acidentes na região e estariam em busca de orações.

A Federação Espírita do Ceará apresentou uma interpretação diferente, sugerindo que os sintomas poderiam estar relacionados à mediunidade, entendendo os episódios como manifestações de uma consciência extracorpórea tentando se comunicar.

Tentativa frustrada de retomada

No dia 14 de junho, a tentativa de normalizar as atividades escolares não teve sucesso. No fim da tarde, com a chegada dos alunos do turno da noite, novos episódios ocorreram ainda na área externa da escola.

Um adolescente de 14 anos precisou ser contido por seis homens após demonstrar força incomum durante uma crise. Ele foi amarrado sobre a carroceria de uma caminhonete para ser levado ao hospital de Canindé.

No mesmo dia, uma jovem, com a voz alterada, fez declarações sobre supostos acidentes que aconteceriam na região, o que aumentou o temor entre os moradores. O impacto social foi significativo, especialmente por se tratar de uma comunidade pequena, localizada a cerca de 50 quilômetros da sede do município.

Clima de insegurança

Até 23 de junho, o medo persistia. Muitos pais tentaram transferir os filhos para escolas de outras cidades. Um morador de 61 anos resumiu o sentimento coletivo ao afirmar que o ambiente estava “pesado” e que buscaria outro local para viver com tranquilidade.

O episódio terminou sem uma conclusão definitiva e permanece como um dos casos mais intrigantes da região.

Em 2026, o jornal Diário do Nordeste voltou a procurar o padre Élio Freitas, que reafirmou ter recomendado o encaminhamento das estudantes para atendimento psicológico e psiquiátrico, além de diálogo com a gestão municipal.

O então secretário de Educação foi contatado, mas preferiu não comentar, limitando-se a dizer que o caso trouxe muitos problemas. A Prefeitura de Itatira também foi procurada para falar sobre políticas atuais de acompanhamento psicológico nas escolas, mas não respondeu aos contatos.

Vulnerabilidade na adolescência

O suposto episódio de Doença Psicogênica de Massa em Itatira reforça a importância de análises técnicas sobre fenômenos psicológicos coletivos. A psicóloga Niveamara Sidrac, presidente do Conselho Regional de Psicologia da 11ª Região (CRP-11), explica que esse tipo de quadro ocorre quando conflitos emocionais se manifestam por meio de sintomas físicos sem causa neurológica ou orgânica identificável.

Segundo ela, alterações de voz e estados de transe são manifestações comuns em surtos psicogênicos, especialmente quando o ambiente está carregado de tensão emocional.

A especialista destaca que adolescentes são mais suscetíveis a esse tipo de situação devido à fase de construção da identidade e à necessidade de pertencimento a grupos. A imitação inconsciente de comportamentos, impulsionada pelos chamados “neurônios-espelho”, contribui para a propagação dos sintomas em ambientes coletivos.

 

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